Artista e ex-morador de rua se orgulha de ser acadêmico de Pedagogia

Músico, artesão, malabarista, artista de rua, estudante de vários idiomas e acadêmico de Pedagogia. Essas são as habilidades de Rodrigo Lima Nascimento, 25 anos, que viveu os últimos cinco anos morando na rua e passou a ter um endereço fixo recentemente. Rodrigo descreve que a rua foi o lugar que o proporcionou conhecimento, trabalho e sobrevivência. Por meio dela, ele conheceu pessoas que se tornaram a família que ele perdeu e cujos membros se afastaram com o passar dos anos, no final da adolescência, por desentendimentos. 

A grande mudança na vida de Rodrigo aconteceu no ano passado quando ele decidiu se inscrever no curso de Licenciatura da Aupex/ Uniasselvi. Ao entender, por meio de um amigo, o verdadeiro conceito de Pedagogia,  além de começar a apresentar malabarismo nos centros de educação infantil, o artista de rua descobriu que a área era bem diferente do que ele imaginava.  “Eu tinha uma concepção errada pois pensava que a pedagogia era para quem cuidava e ensinava crianças. Percebi que algumas pessoas que eu conhecia também faziam a faculdade e entendi que o ambiente escolar era gratificante por gostar do resultado que transmitia as pessoas”, aponta. 

Contudo, o período foi desafiador na vida pessoal de Rodrigo. Ele conta que teve a disposição um espaço numa casa oferecida por familiares, mas era pressionado por eles a desistir de Pedagogia e começar uma faculdade que eles aprovassem. “Tive que fechar os olhos e seguir em frente. Eram parentes que me achavam um vagabundo por eu conseguir viver de forma alternativa, dizendo que o curso era só para mulher”, revela. 

Por morar na rua, o acadêmico enfrentou dificuldades que quase o fizeram desistir de estudar. “Nesses cinco anos fazia malabares debaixo de tempestade pra conseguir me levantar do zero, a dormir debaixo de chuva, molhado no inverno, a ser acordado com gente te humilhando. Dormi muitas vezes com uma faca debaixo do travesseiro pois vi muitos colegas morrerem e nada ser feito. Eu agradecia por acordar pelo menos vivo”. E acrescenta: “Eu não sei como eu não desisti. Realmente, tudo é uma escolha”, reflete.

Outro desafio que fortaleceu Rodrigo a permanecer na faculdade foi ter enfrentado o desafio de superar a gagueira, problema que acontece quando ele fica nervoso e o acompanha desde a infância. O aluno pensou em desistir quando teve de apresentar seu trabalho acadêmico e aponta sua professora Dilcicléia Barros Gonçalves como maior incentivadora em apoiá-lo a permanecer na faculdade. “A Dilcicléia é demais, foi muito sensível comigo mesmo sem saber o que eu vinha passando. Ela sabe o que falar na aula, impressiono-me com ela sempre”, enfatiza.

São professores de atitude transformadora que fizeram com que Rodrigo não desistisse de estudar mesmo diante das adversidades da vida. Ele lembra que sempre foi um aluno com baixo desempenho escolar e que não gostava de estudar. Mas acredita que essa experiência pode transformá-lo no melhor professor justamente por meio do método de abordagem de alunos com esse perfil. “Não me vejo sendo professor dos melhores alunos, me vejo sendo o professor dos alunos ‘problemáticos’ pois sei que a linguagem não é única. Eu tive alguns professores exemplares e acho que isso é motivante para que eu me torne um”, pondera.

Atualmente, o aluno mora com um casal de amigos, onde divide o aluguel. Segundo Rodrigo, sem a ajuda deste casal, ele não teria feito o supletivo do ensino médio e ingressado na faculdade. Mas isso não significa que Rodrigo pense em abandonar a arte de rua, mesmo tendo a pretensão de se tornar professor em sala de aula. “Nunca vou parar com a arte de rua. Aprendi muito, são coisas que não se ensinam em escolas. Viajei mais de 50 cidades apresentando meu trabalho nesse tempo. Formei uma família e consigo tempo pra estudar”, compara. 

O acadêmico não se importa com o preconceito das pessoas em relação ao seu ofício e declara que seu trabalho é cansativo, mas não o impede de fazer nada. “Às vezes tem alguém que me joga moedas e fala: é pra sua cachaça! Mal sabe que vai direto pra impressão de algum trabalho da faculdade”, ironiza. “Sou um artista de rua que não fuma nada, não bebe, não usa drogas e estuda! Estou satisfeito com minha vida”, aponta. 

 

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